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Diego Marcos vieira da Silva Psicólogo comportamental (CRP15/4764): Líderes religiosos e seu papel influenciador

Diego Marcos vieira da Silva  Psicólogo comportamental (CRP15/4764): Líderes religiosos e seu papel influenciador
novembro 02
19:43 2017

Recentemente temos acompanhado destaques midiáticos para determinados líderes religiosos, seja insultando políticas igualitárias, seja denegrindo e destruindo práticas que diferem do seu habitual; como se não bastasse tais abominações, uma rede de “fieis”, em suma liderados por seu agente controlador, aderem a determinadas práticas, por meio de modelação, promovendo uma sociedade ainda mais coercitiva e desigual. Como as religiões influenciam as pessoas e como os líderes exercem poder influenciador de modo que práticas abusivas sejam destaques cada vez mais negativo nas relações entre os sujeitos de determinada sociedade?

Para compreender as dimensões desse tema, é necessário antes reafirmarmos que partimos do pressuposto do behaviorismo radical, o qual apoiado na seleção natural, afirma que o comportamento humano é determinado por três grandes pilares: filogênese, que está ligada a história de nossa espécie e como ao longo dos anos fomos selecionando determinados tipos de comportamento que são comuns a todos os seres humanos, a ontogênese, a qual compreende que as causas do comportamento humano foram selecionadas de acordo com a história de aprendizagem do sujeito, e sociogênese que compreende a cultura em que o mesmo está inserido. Para analisar qualquer tema, devemos partir desses pilares, inclusive para abordarmos o comportamento se liderança religiosa. Para isso, esse texto será dividido em duas partes: a primeira deve analisar o contexto das religiões e como ao longo do tempo ela foi selecionada para contribuir para a formação das sociedades e a segunda analisará o comportamento de liderança e como esse comportamento tem influência sobre os outros.

“Segundo dados do IBGE, 92% dos brasileiros se declaram religiosos (IBGE, 2010). Esta predominância de religiosos em relação a não-religiosos também pode ser encontrada na maioria das nações do mundo, e não há dúvidas de que o comportamento religioso é bastante freqüente hoje a ao longo de toda a história. Não se tem notícia de nenhuma cultura humana, mesmo isolada geograficamente, que não tenha alguma forma de religião” (SAMPAIO, 2016)

Em Ciência e Comportamento Humano (1953), B.F.Skinner dedica um capítulo de sua obra falando sobre agências que têm controle sobre o comportamento do homem, em suma através de reforçadores sociais. A religião é citada por ele como uma dessas agências, a qual tem influência social desde a mais tenra idade. A vida em sociedade demanda a necessidade de reforçadores sociais que instalam e mantém comportamentos que garantem a sobrevivência de um grupo. Filogeneticamente nascemos para vivermos em grupo, seja o grupo familiar, o escolar, o cultural, somos seres sociais e a inserção em grupos possibilitou ao homem o acesso a reforçadores ligados a proteção, por exemplo. A religião, conforme Skinner é uma agência que controla o comportamento do ser humano de modo que, estabelece como e onde determinado comportamento deve ser emitido, para que através disso, o mesmo possa ser reforçado positivamente por Deus. Em “Coerção e suas implicações” (1989), Sidman já falava sobre religião como uma forma de controle do comportamento humano, particularmente como uma forma de controle através de coerção.

“Não posso deixar de notar o tipo de controle exercido pelas igrejas. É um controle que envolve punição e reforçamento negativo com muito mais freqüência que o reforçamento positivo; portanto, são agências nas quais a coerção predomina.” (SIDMAN, 1989) Para ficar mais claro, comumente ouvimos líderes religiosos e até mesmo membros de uma igreja elencar determinados comportamentos que devem ser evitados para que o sujeito não tenha conseqüências negativas (aversivas) na sua vida, bem como a mesma igreja reforça comportamentos que devem ser emitidos para evitar determinadas “punições” sofridas por quem emite comportamento inadequado (pecaminoso). Este mesmo autor complementa que controle exercido pelas igrejas é um controle que envolve punição e reforçamento negativo com muito mais freqüência que o reforçamento positivo; portanto, são agências nas quais a coerção predomina; ou seja, o sujeito vai a igreja e comporta-se de determinada forma para evitar uma punição de Deus e/ou do próprio grupo religioso, uma vez que os demais membros se afastarão desse sujeito e este ficará isolado do meio social. Então para manter-se sempre em grupo e tendo acesso a reforçadores específicos, o sujeito precisa evitar determinados comportamentos inadequados.

“Então quando um fiel diz que ‘vai a igreja porque tem fé’, ele estaria mais correto se dissesse que ‘tem fé porque vai à igreja’. Da mesma forma, quando alguém diz: ‘ele perdeu a fé’, estamos diante de uma situação em que o recém-incrédulo não recebeu mais reforços e, portanto, o comportamento religioso se extinguiu. É o que acontece quando alguém troca de religião ou desiste definitivamente de praticar uma” (Tyffane et. al., 2007)

Por outro lado, as agências de controle têm objetivo de ‘organizar’ a vida em sociedade, uma vez que estão inseridas numa realidade em que comportamentos inadequados são emitidos constantemente, os quais evocam respostas emocionais diversas nos sujeitos e promovem uma sociedade aversiva aos demais. Dessa forma, podemos já afirmar que a religião se constitui como uma forma de influência sobre as pessoas, em grande parte através da modelação (comportamento que é emitido pelo sujeito, vendo outro sujeito emiti-lo).

Uma vez exposto nosso primeiro motivo pelo qual as pessoas religiosas se comportam, passaremos agora a analisar o comportamento dos líderes religiosos e como exercem influência sobre as pessoas. No início desse texto expliquei sobre as três variáveis de seleção que estão envolvidas no comportamento humano, seja ele adequado ou não. Quando em análise do comportamento falamos de comportamento adequado estamos nos referindo ao comportamento que garantem a sobrevivência do organismo, tendo conseqüências fortalecedoras a longo prazo, os quais são reforçados no ambiente social; já quando falamos de comportamentos inadequados, falamos de comportamentos que não garantem a sobrevivência do organismo e a longo prazo o mesmo tem conseqüências aversivas no meio ambiente. Por ambiente, entendemos não apenas o físico e palpável, mas toda relação do organismo com variáveis que direta ou indiretamente provoca o comportamento do sujeito mutuamente.

O comportamento social é mais extenso e flexível do que o comportamento individual reforçado por outros estímulos ambientais, pois o reforço social costuma abranger inúmeras variáveis, dependendo também da condição do agente reforçador. O comportamento de líder foi selecionado ao longo da evolução para garantir a sobrevivência de um grupo. Filogeneticamente fomos constituídos enquanto seres humanos para ter um líder.  No mundo animal, o líder normalmente é identificado por seus atributos físicos e comportamentais. Chamamos de alfa, aquele que exerce papel de liderança em determinado ambiente. Carl Safina em 2016 afirmou que “O genuíno líder de uma alcatéia de lobos é empático respeitoso, longe do estereótipo de pai e chefe controlador e agressivo com o qual muitos homens são identificados.” O papel de liderança vai ser modificado conforme o meio social do indivíduo e cada ambiente vai determinar quais as variáveis envolvidas no comportamento de líder. No contexto organizacional, por exemplo, o papel de liderança assume uma posição de controle sobre os demais subordinados, em prol da qualificação dos serviços da empresa. O líder tem a função de unir os elementos do grupo, para que, juntos, possam alcançar os objetivos comuns. A liderança está relacionada com a motivação, porque um líder eficaz sabe como estimular a equipe a dar o seu melhor (Solides)

Em outros textos falaremos melhor sobre papel de líder em determinados ambientes, neste texto me detenho ao papel de líder nas igrejas e como este influenciam as pessoas. A ciência do comportamento dispõe de meios para avaliar o que leva uma pessoa a juntar-se a um grupo social, bem como a comportar-se de modo a agredir alguém, por exemplo, bastando analisar as variáveis geradas pelos grupos que reforçam determinados comportamentos. Levando em consideração que o grupo exerce forte influência sobre o comportamento humano, as variáveis recaem sobre o comportamento do líder duas vezes mais forte, uma vez que ele representa e organiza um grupo. Na neurociência os neurônios espelho são uma realidade comprovada cientificamente, os quais são responsáveis por nos comportarmos conforme vemos o outro se comportar. Tendemos a imitar o comportamento do outro através desses neurônios; bem como validamos determinado comportamento justamente por estarmos num meio social em que essa validação é reforçada positivamente, ou seja, as pessoas valorizam emissão comportamental que condiz com uma prática do grupo, então se o líder comporta-se de determinada forma isso servirá de modelo para que os demais membros do grupo validem e repitam aquele comportamento. Independente de “certo” e “errado” comumente associado a práticas sociais. Sidman (1989) apud Tiffany et al. (2007) diz que:

“Nossos valores não nasceram conosco, mas foram aprendidos quando ainda éramos crianças. Alguns comportamentos nossos eram punidos, então, somente quando nos foi apresentado um estímulo aversivo é que pudemos distinguir o ‘certo’ do ‘errado’, através daqueles que eram punidos ou reforçados. Foi assim que surgiu nossa consciência moral e a distinção entre o que é bom e o que é mau. Se não tivéssemos experimentado sensações desprazerosas, esses valores nunca viriam se tornar tão claramente distintos para nós”

Com isso, é possível compreendermos que o ser humano se comporta, apenas. A noção de certo e errado vai ser compreendida conforme o meio social em que o indivíduo está inserido. Não nascemos com valores predeterminados, mas eles são selecionados no ambiente de reforçamento e punição do sujeito e quando estamos falando de uma análise social, como a religião e as igrejas, estamos nos referindo a um grupo que reforça certos padrões de comportamento necessários para a manutenção do mesmo. O fanatismo religioso deve ser compreendido, dessa forma, como qualquer outro comportamento, pois ele segue as mesmas leis naturais do comportamento. A partir do momento em que passamos a analisar a funcionalidade do comportamento humano, estaremos compreendendo-o sob a ótica do behaviorismo radical, o qual embasa a ciência da análise do comportamento.

Texto: Diego Marcos vieira da Silva

Psicólogo comportamental (CRP15/4764), formado pela Universidade Federal de Alagoas, especializando em neuropsicologia, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental.

REFERÊNCIAS:

ALBANEZI, Renan Miguel. Behaviorismo Radical e comportamento religioso: primeiras considerações. 2015. Disponível em: < https://www.comportese.com/2015/05/behaviorismo-radical-e-comportamento-religioso-primeiras-consideracoes> acesso em 29 de outubro de 2017.

PARANÁ, Tyffane Serra; DITTRICH, Alexandre. Um diálogo entre um cristão ortodoxo e um Behaviorista Radical. Psicologia Ciência e profissão, 2007, 27 (3), 522-537. Disponível em: < http://pepsic.bvsalud.org/pdf/pcp/v27n3/v27n3a12.pdf > Acesso em 30 de outubro de 2017

REDAÇÃO PRAGMATISMO. Fundamentalismo religioso é causa de graves transtornos mentais. 2013. Disponível em: < https://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/04/fundamentalismo-religioso-e-causa-de-graves-transtornos-mentais.html> acesso em 30 de outubro de 2017

SAMPAIO, Pedro Henrique de Faria. O Comportamento Religioso: análise da religião e da religiosidade sob uma perspectiva behaviorista radical.  Curitiba, 2016. 101 f. Disponível em: < http://calvados.c3sl.ufpr.br/bitstream/handle/1884/45800/R%20-%20D%20-%20PEDRO%20HENRIQUE%20DE%20FARIA%20SAMPAIO.pdf?sequence=1&isAllowed=y> acesso em 29 de outubro de 2017.

SIDMAN, Murray. Coerção e suas implicações. (R. Azzi; Andery, M.A., trads) Campinas: Editorial Psy. (Originalmente publicado em 1989).

Skinner, B.F. (2003). Ciência e comportamento humano. Tradução organizada por J.C.Todorov & Azzi 11ª edição. São Paulo: Martins Fontes Editora. (trabalho original publicado em 1953).

DIEGO VIEIRA

 

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