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Precisamos falar sobre Bullying antes que seja tarde: Todo comportamento repetitivo que tem por objetivo agredir alguém na escola, pode ser considerado Bullying

Precisamos falar sobre Bullying antes que seja tarde: Todo comportamento repetitivo que tem por objetivo agredir alguém na escola, pode ser considerado Bullying
outubro 25
15:23 2017

Ultimamente vem crescendo o número de publicações de eventos violentos ocorridos em ambientes escolares por todo o Brasil. A repercussão tem levantando discussões que norteiam o trabalho do professor e a interação dos alunos em sala de aula, tendo em vista a coerção presente nesses ambientes, comumente relatado por quem pratica e quem sofre de bullying. Há a necessidade de se falar sobre isso, pois estatísticas internacionais revelam números assustadores envolvendo comportamentos de agressão com adolescentes no espaço escolar. Vão desde o sofrimento pessoal chegando a causar transtornos psicológicos a comportamentos que tendem a dar fim a vida dos colegas no ambiente escolar e/ou a própria vida. Casos marcantes como o ocorrido na creche de Janaúba, em Minas Gerais e na Escola de Goiânia ressaltam a relevância do assunto, uma vez que em ambos os casos, há relação com a prática do bullying. Um tema que deve ser analisado e discutido com cuidado por adolescentes visto que são pessoas mais vulneráveis ao efeito ‘werther’. Este termo refere-se a publicidade de um caso notável que serve de estímulo a novas ocorrências. Bullying e homicídio ou suicídio são temas amplos que abrangem não apenas a pessoa em si mas toda uma rede de pessoas a sua volta e neste texto pretendo explorar aspectos comportamentais envolvidos nos dois comportamentos levando em consideração variáveis envolvidas e funções comportamentais.

Todo comportamento repetitivo que tem por objetivo agredir alguém na escola, pode ser considerado Bullying, diz-se na escola pois é o local onde jovens estão na fase de interação social, sendo o primeiro ambiente ao qual estes frequentam na sociedade e pelo qual originou-se o termo nos eventos incluindo morte de alunos na Noruega em 1993. Para melhor compreensão, Quintanilha (2011) afirma que a palavra bullying “é compreendida universalmente como um conjunto de comportamentos agressivos, repetitivos e intencionais sem motivo aparente, adotado por um ou mais alunos contra outro (a) causando angústia, dor ou sofrimento”. Imagine que Júlia é uma garota negra, católica, 10 anos de idade e tímida. Suas primeiras interações na escola são com uma turma onde alguns alunos agem com preconceito para com os demais, provocando colegas e causando desconforto que chegam a agressão física. Júlia acaba sendo alvo desse grupo de amigos que passam o tempo todo a agredi-la visto que se mostra muito inofensiva. Esta garota cresce neste espaço desenvolvendo baixa autoestima, baixa autoconfiança e baixo rendimento escolar, chegando a sentir-se ansiosa sempre que se aproxima da hora de ir ao colégio. Júlia é vítima de bullying. Embora estamos sujeitos a frustrações e insultos por parte de terceiros proveniente de sermos alvo de chateações, o fenômeno só se caracteriza caso ocorra com frequência. Em análise do comportamento chamamos de “resposta emocional condicionada”, toda ação do organismo que envolve sentimentos que são evocados ao estarmos em contato com algo que se associe a uma condição aversiva que vivenciamos no passado. Para ficar mais claro, condição aversiva é todo ambiente que nos traz algum malefício. Por ambiente nós entendemos não apenas o físico e palpável mas toda relação que influencie nosso comportamento, tanto que o outro pode ser ambiente para nós. Exemplo, João é um adolescente que vive apelidando aos colegas na escola causando constrangimento. João pode ser considerado estímulo/ambiente aversivo para aquelas pessoas que são vítimas dele. Mas voltando a “resposta emocional condicionada”, o fato de ter sido constrangido por João e isso ter provocado reações de medo quando ele assim o fez, pode fazer com que a simples presença de João em outros ambientes, evoque respostas de ansiedade na pessoa que outrora passou por situações aversivas com ele. O mesmo pode acontecer com adolescentes que sofrem bullying e apenas ao perceber que se aproxima a hora de ir ao colégio, sentem-se extremamente ansiosos, sem motivo aparente.

No Brasil, um projeto aprovado no senado em 2016 intitulado “programa de combate a intimidação” elenca oito formas de bullying que podem ser detectadas por pais e educadores em relação ao seu filho: a violência física que está associada a chutar, bater, etc.; o bullying psicológico, que nesse caso envolve intimdação, perseguição e chateaçao por parte dos agressores; o bullying moral podendo ser visto em calúnia, difamação e boatos sobre a vítima; o bullying verbal  caracterizado por insulto, xingamento e apelidos colocado na vítima; bullying sexual que está relacionado ao assédio, indução e abuso sexual; o bullying social que inclui a ignorância de alguém impedindo a participação dela nos grupos sociais; o bullying material que está relacionado ao furto, roubo ou destruição dos pertences e por último o bullying virtual, conhecido como cyber bullying que está relacionado a humilhação nas redes sociais, falsificando dados pessoas e provocando sofrimento através da internet. Este último vem crescendo em um número asssutador nos últimos anos. Vale considerar que estes eventos já estão incluídos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e no Código Penal brasileiro.

Tais eventos merecem destaques pois se agravam o número de adolescentes que buscam apoio psicológico para lidar com situações de bullying. Em termos comportamentais, este fenômeno pode ser analisado como qualquer outro comportamento pois são regidos pela mesma lei comportamental: são comportamentos resultados da interação com o ambiente, nele são instalados e nele são mantidos. Para ficar mais claro, O adolescente que emite comportamentos de agressão para com os colegas busca uma visibilidade e um reconhecimento social, não obtendo de outra forma, o único comportamento que o fez ser notado e ”temido” foi o de agressão, visto que quando emite estes comportamentos ele evita ser punido pelos colegas, evita ser vítima de agressão, evita ser alvo de críticas, pelo contrário ele ganha reconhecimento, todos em sua volta fazem tudo que ele pede, os professores o veem como “dono do pedaço”, evitando repreendê-lo e no final, ele tem todas as garotas apaixonadas por ele, pois representa uma pessoa que vai protegê-las de qualquer mal naquele ambiente. Por outro lado, a vítima do agressor (bully) torna-se uma pessoa fragilizada apresentando comportamentos de pouco rendimento escolar, pois acaba não se concentrando nas atividades acadêmicas, em meio ao ambiente de perigo a qualquer momento, apresenta baixa auto-estima e baixa autoconfiança pois passa por situações onde não pode fugir, evita sair de casa para não encontrar com o agressor ou pessoas que se assemelhem a ele e a trate da mesma forma, evita contato social pelo mesmo motivo e tende a entrar num quadro ansioso e/ou depressivo. Em alguns casos a possibilidade de suicídio não pode ser descartada como apresentado na série norte-americana “13 reasons why”.

A série começou a ser exibida na Netflix  no final de março deste ano e desde então vem sendo alvo de algumas críticas tanto positivas por trazer a tona um tema importante como este, tanto negativa por romantizar o problema não abordando-o de forma delicada, como de fato o tema deve ser discutido. “13 reasons why” foi baseada no livro de Jay Asher e narra a história de Hanna Baker, uma adolescente de 17 anos do ensino médio que faz 13 gravações onde relata os motivos de seu suicídio, focando na culpabilização tanto dos amigos, quanto da escola e da sociedade em geral. Embora o bullying tenha sido um tema pertinente a ser discutido na série mostrando cenas de diferentes tipos de agressões partindo dos colegas da protagonista, culminando num ato de suicídio, a forma com foi produzida marcou de forma positiva este comportamento, como um ato de heroísmo em meio ao sofrimento de Hanna, chegando a afirmar que “suicídio não é escolha”. Partindo do pressuposto de que todo comportamento é instalado e mantido pelo ambiente, pode-se afirmar que o comportamento suicida ou o homicida, como vimos nos casos no Brasil, é produto das interações do sujeito com o ambiente, QUANDO este está sob condições de risco que incluem sua fragilidade para lidar com situações aversivas, ou seja, quando o indivíduo não tem meios (comportamentos) para enfrentar um sofrimento presente. Normalmente pessoas que emitem comportamentos suicidas deixam claro um repertório comportamental pouco variado tendo em vista a limitação para lidar com frustrações. Uma mulher de 20 anos, por exemplo, que sempre foi polpada de qualquer tipo de sofrimento, tendo todos os seus desejos atendidos e tratada como uma princesa pelos pais, provalmente tenderá a entrar numa condição depressida (de desamparo) frente a algum tipo de frustração como o de “não ser reconhecida nos ambientes sociais”, ou até mesmo ser mal sucedida em alguma atividade, nunca feita por ela. Em alguns casos, o fato de ser traída pelo namorado, pode ser motivo de suicídio, tendo em vista sua tentativa de chamar atenção do mesmo. Nunca se sabe os reais motivos que levam alguém a suicidar-se, pois o comportamento humano é multideterminado e apenas conhecendo a história da pessoa poderá ser possível chegar a funcionalidade do comportamento de tirar a própria vida.

Ao contrário do que se pensa, não há uma resposta óbvia, imediata, simples, nem completa. Homicídio e suicídio na adolescência são fenômenos altamente complexos e resulta de uma combinação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. (Zortea, 2015). Em análise do comportamento o comportamento de acabar com a vida do outro tem como principal função a fuga e a esquiva de situações aversivas. Chamamos de fuga todo comportamento que tem por finalidade livrar-se de uma situação aversiva no momento em que ela acontece, por exemplo quando um sapato aperta nossos pés, logo o tiramos pra se livrar do desconforto. O mesmo acontece com a esquiva só que nós emitimos o comportamento de livrar-se do aversivo antes dele acontecer, por exemplo quando temos que apresentar um trabalho escolar, faltamos ao colégio justificando que estava doente. Desse modo, o comportamento suicida tem como finalidade(função) geral evitar uma situação negativa.

Então, a fim de amenizar as estatísticas de casos de bullying nas escolas, faz-se pertinente voltarmos mais nossos olhos às pessoas a nossa volta. Um pedido de ajuda pode ser notado nas frases “a escola não tem mais sentido pra mim”, “não estou motivado a me relacionar com colegas” e/ou “todo mundo me apelida de algo, cansei disso”. Atente-se a qualquer comportamento que soe estranho no repertório normal da pessoa. Esteja atento ao comportamento de seu filho em evitar ir a escola, em diminuir as notas escolares, não querer participar de grupos, isolar-se ou diminuir a quantidade de vezes que faz algo que antes era prazeroso. É necessário ser empático com pessoas que apresentam comportamento como esses. Skinner, em entrevista ao Through This, dz: ”penso que gentileza, compaixão e cuidado exercem um profundo efeito. Eu realmente acredito nisso. Mesmo que essas ações não tenham as respostas, ou que eu não tenha as respostas, se alguém está sendo validado e valorizado, eu acredito que isso possui um efeito imenso no início da cicatrização da dor”.

Diego Marcos Vieira da Silva

Psicólogo comportamental (CRP15/4764), atuante na área de neurodesenvolvimento infantil, pela APAE, atuante na secretaria de Assistência social de Maribondo, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental.

 

Referências:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. 992p.

BANACO, Roberto Alves. Técnicas cognitivo-comportamentais e análise funcional. Laboratório de psicologia experimental Pontifícia Universidade QUINTANILHA, Clarissa Moura. Um olhar exploratório sobre a percepção do professor em relação ao fenômeno bullying. 2011. 112pg. Disponivel em: < http://www.ffp.uerj.br/arquivos/dedu/monografias/cmq.2.2011.pdf>

ZORTEA, Tiago. Prevenção ao suicídio em nível individual: o papel da empatia no salvamento de vidas. 2016. Comporte-se. Disponível em: < http://www.comportese.com/2016/10/prevencao-suicidio-empatia>

ZORTEA, Tiago. Suicídio: observações sobre a tragédia de não mais querer viver. Comporte-se, 2015. Disponivel em: < http://www.comportese.com/2015/09/suicidio-observacoes-sobre-a-tragedia-de-nao-mais-querer-viver>

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